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Por que não liberam o doping no esporte? Entenda a questão

Questão exige uma contextualização das dimensões esportivas

Se você acompanha o noticiário esportivo, provavelmente já passou pela sua cabeça ou ouviu alguém questionar: se o doping é um problema tão grande no esporte profissional, por que não liberar logo para todo mundo? A resposta tem um pano de fundo complexo.

Primeiro de tudo, é preciso compreender que o esporte se apresenta para a sociedade em três formas:

1) Esporte-Educação: aquele que é (ou deveria ser) colocado para nós na educação física da escola e nos projetos sociais voltados ao esporte. Ele ajuda na formação do cidadão e no desenvolvimento motor das crianças e jovens.

2) Esporte-Lazer: voltado ao bem-estar social do participantes. É aquele jogo de futebol descompromissado durante a semana com os amigos ou qualquer outra atividade física que funcione como uma forma de distração da correria do dia-a-dia. É aberto a qualquer tipo de pessoa, independente da habilidade ou condição física.

3) Esporte-Performance: é o esporte de alto rendimento, profissional e competitivo. Exige a excelência dos participantes e possui todo um sistema de movimentação de dinheiro e patrocínios por trás.

O doping se concentra essencialmente no esporte-performance. Ora, se um atleta deseja obter o melhor rendimento possível para alcançar seus objetivos e arrecadar patrocinadores para se manter ou crescer no nível profissional, as substâncias para aumentar o rendimento se apresentam como uma tentação, seja pessoal ou imposta pela equipe ou federação esportiva.

Onde as dimensões se conectam

Todas as três dimensões estão interligadas. Vamos imaginar um homem que tem um filho de nove anos de idade. Este homem gosta de futebol, assiste pela televisão e joga algumas vezes por semana junto com os amigos. Com isso, ele incentiva o filho a praticar o esporte na escola, sabendo dos benefícios físicos e sociais que a prática pode trazer.

O filho, por sua vez, também passa a gostar do esporte. Ao assistir alguns jogos, se sente motivado a continuar a praticar futebol e pede ao pai uma chuteira do jogador preferido e um uniforme do time do coração.

Nesse cenário temos o esporte-performance motivando o pai a praticar o esporte-lazer e o filho a seguir interessado no esporte-educação. A identificação com um time e/ou com um atleta, reforça isso.

O filho, se demonstrar uma habilidade acima da média, pode até tentar entrar no esporte profissional, caso não demonstre, ainda terá para si o esporte-lazer. É uma essência do esporte, principalmente na dimensão educacional: ser inclusivo.

Esportistas viram inspiração para crianças e jovens

A imagem que quem banca o esporte profissional quer passar

Quando Ryan Lochte aprontou no Rio de Janeiro durante a Olimpíada de 2016, uma das reações instantâneas foi a perda dos contratos de patrocínio. Em um caso ainda mais específico, os patrocinadores da tenista Maria Sharapova não hesitaram em romper o patrocínio da russa após a suspensão por doping em 2016.

Os patrocinadores, via de regra, não querem associar suas marcas com atletas que tenham condutas descomprometidas, posições rudes ou sejam taxados como “trapaceiros”. Pelo contrário, querem atletas que passem a ideia de saudáveis e com boas condutas. As empresas desejam que as pessoas apreciem e até se identifiquem com os atletas que estão associados à suas marcas.

Eternas dúvidas

É um fato batido incansavelmente nas discussões sobre esportes: o doping está anos à frente do antidoping.

Especulações e até provas (vide o ciclista norte-americano Lance Armstrong) de esquemas cinematográficos para encobertar doping também são pautas recorrentes nas discussões e noticiários. Um dos casos mais emblemáticos de eternas dúvidas relacionadas ao doping é o da norte-americana Florence Griffith Joyner, recordista mundial dos 100 e 200 metros rasos.

Três décadas depois, ninguém ameaça bater os recordes de Florence Griffith Joyner

As expressivas marcas de 10s49 nos 100 e 21s34 nos 200 metros rasos vieram no mesmo ano: 1988. Florence Griffith Joyner conquistou três ouros nos Jogos de Seul 1988. O biênio havia marcado uma ascensão meteórica no desempenho da norte-americana. A atleta, que tinha 28 anos na época dos recordes, sequer participou do ciclo olímpico seguinte, quando o cerco ao doping começou a fechar.

Em 1990 a norte-americana começou a ter convulsões recorrentes. Oito anos depois, durante um ataque epilético, Florence Griffith Joyner faleceu aos 38 anos de idade, levando consigo dúvidas sobre o que a fez correr tanto em Seul.

Um exemplo recente de trabalhos retroativos em torno de doping são os retestes de amostras dos Jogos de Pequim 2008. Realizadas em 2016 com novas tecnologias, o Comitê Olímpico Internacional identificou no ano passado mais de 15 novos casos de doping da Olimpíada na China. Se os resultados tardam, exemplos como esse são mostras que há trabalho sendo feito e que há, sim, interesse em buscar justiça, mesmo que tardia.

Se por um lado, mostra que (pelo menos parte dos casos) não está sendo encoberto, ainda pairam dúvidas. Será que podemos confiar nas medalhas quando elas saem? Será que os Estados Unidos são protegidos ou realmente têm as superestrelas multimedalhistas livres de doping? Essas questões ainda devem ecoar por bastante tempo no mundo do esporte profissional.

Se sempre vão existir dúvidas, por que não liberam o doping?

Peguemos o exemplo a substância GW501516. Inventada na década de 90 para tratar doenças do metabolismo e do coração, ela foi abandonada em 2007, quando cientistas identificaram — em testes com animais — que a droga poderia causar um tipo de câncer que se desenvolve rapidamente em vários organismos. No mesmo período, foi identificado que a GW501516, consumida em determinada dose, podia aumentar significativamente a performance física das pessoas.

Em 2009 ela foi colocada na lista de substâncias proibidas da Agência Mundial Antidoping (Wada), depois de fortes especulações de que atletas haviam feito uso dela nos Jogos de Pequim 2008. Mesmo após a proibição, vários casos de doping por GW501516 surgiram em grandes competições do ciclismo.

Campeã olímpica e mundial, Elena Lashmanova já foi flagrada com GW501516 | Getty Images

Basicamente, se você libera o doping, está aceitando que os atletas de alto rendimento tomarão qualquer coisa que os façam ganhar, antes mesmo de atestar a segurança disso. É uma corrente: se um atleta deseja se dopar para vencer, outro vai querer se dopar mais para batê-lo. Isso tende a elevar, cada vez mais, o limite que os atletas estarão dispostos a atingir para se tornarem os vencedores.

A tendência é que esse nível de dopagem fique tão alto que, para chegar no alto rendimento, o jovem terá a convicção de que precisará realizar uso de substâncias dopantes que colocarão sua saúde — e sua vida — em risco.

Ao regulamentar o uso de substâncias, a Wada ainda assegura a associação do esporte, como um todo, com a saúde.

Uma vez que isso se perca, a estrutura das dimensões sociais quebra por inteiro, sendo o principal ponto de ruptura no esporte-educação. Ao assumir que é necessário o uso de substâncias que colocam a saúde em risco para atingir o nível profissional, os pais não vão mais desejar que seus filhos continuem no esporte e sejam expostos a esse tipo de substâncias, bloqueando a transição para o alto rendimento.

Ao eclodirem as notícias de esportistas profissionais desenvolvendo doenças e morrendo precocemente, a associação do esporte como uma prática saudável romperia, afastando público e patrocinadores.

Sem financiamento e sem público, a máquina do esporte profissional quebra.

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