Redes Sociais

Perfil

Por que Lindsey Jacobellis é uma das maiores atletas sem ouro olímpico no século

Norte-americana supera queda dramática no último salto da final olímpica em Turim para acumular recordes e fazer história no snowboard cross. Confira o perfil de Lindsey Jacobellis

Turim, 16 de fevereiro de 2006

20 anos de idade

Lindsey Jacobellis aponta sozinha para a reta final na liderança da final olímpica do snowboard cross. A pouca idade engana em relação ao histórico de tricampeã do Winter X-Games e campeã mundial antes dos 21, mas não tira dela o espírito jovem de querer, acima de tudo, se divertir com a prancha de snowboard.

Faltam dois saltos e menos de 50 metros para a chegada. Jacobellis realiza o primeiro segurando a prancha, em uma manobra que parecia a comemoração antecipada pelo ouro iminente. O pouso é errado e a norte-americana é jogada no chão.

A suíça Tanja Frieden aparece atrás e ultrapassa Jacobellis, que ainda consegue se levantar, mas, sem embalo, pouco pode fazer para correr atrás do prejuízo. “Tecnicamente, Lindsey era muito melhor que eu. Ela só poderia ter sido batida por ela mesma”, disse Frieden, que cruzou a linha de chegada para o ouro.

“Eu nem pensei duas vezes”, falou Jacobellis aos repórteres logo após a prova. “Eu estava me divertindo, e isso que é o snowboard. Eu estava liderando, queria compartilhar com o público o meu entusiasmo”.

A prata mais amarga dos Estados Unidos naquela edição de Jogos Olímpicos de Inverno passava, naquele momento, a fazer parte do primeiro plano da história de Lindsey Jacobellis. “Eu sabia que tinha cometido um erro”, afirmou Jacobellis à Sports Illustrated anos depois. “Mas sinto que os meios de comunicações do país foram um pouco injustos em colocar tanto estresse e ser tão duros com alguém tão jovem”.

O fato é que a televisão e os jornais, sedentos por uma história vulnerável a sensacionalismos, atribuíram mediatamente a Jacobellis o rótulo de “menina que caiu na final olímpica ao querer brincar”. Para o público leigo do snowboard, era o que passava a valer a partir de então.

Sierra Nevada, 12 de março de 2017

31 anos de idade

11 anos depois, o ouro olímpico ainda não veio para Lindsey Jacobellis. Snowboard cross passa longe de ser um esporte de certezas em relação aos resultados. Se qualquer mínimo esbarrão ou desvio de trajeto podem custar posições, para a norte-americana os erros pontuais em Vancouver 2010 e Sochi 2014 custaram caro.

Por outro lado, o dia 12 de março deste ano marcou o quinto título mundial da carreira da norte-americana, segundo consecutivo, após ter ganho também em 2013 na competição bienal. Ninguém ganhou mais títulos mundiais que ela no snowboard cross.

No Winter X-Games ela vai além. Na competição que ainda é, para muitos, a mais importante do snowboard mundial, ela tem 10 medalhas de ouro e o recorde de mulher mais vitoriosa da história do evento em qualquer prova. Na Copa do Mundo, 27 etapas foram vencidas por ela.

Lindsey Jacobellis é um fenômeno. Décadas serão necessárias para que alguém possa igualar os feitos da atleta, que encontrou uma nova motivação na queda de Turim 2006.

“Se eu tivesse ganho em Turim, eu teria desistido do esporte, porque não gostava tanto de snowboard naquele momento”, disse Jacobellis à Sports Illustrated em 2015. “Eu estava pronta para ir embora, sacar o dinheiro e morar na Califórnia. Isso é o que todo mundo diz, se você acabou de ganhar os Jogos Olímpicos, então você está com a vida definida”.

Stratton Mountain, 12 de março de 1996

11 anos de idade

Influenciada pelo irmão mais velho, Benny, Lindsey Jacobellis começou no snowboard cross aos 11 anos de idade. A jovem logo ingressou no programa de esportes da Stratton Mountain School, em Vermont, Estados Unidos. Lá, estudava durante o dia e treinava snowboard à noite.

Não demorou muito para as montanhas locais ficarem pequenas para Jacobellis. Com uma personalidade bastante competitiva e diante das frequentes vitórias com folga em Stratton Mountain, aos 15 anos de idade foi chamada para participar, pela primeira vez, do Winter X-Games.

Aos 18, faturou o primeiro “x” de ouro na competição. Aos 20, chegava na primeira Olimpíada da carreira como campeã mundial e tricampeã do Winter X-Games. Em todo esse tempo, a história de Lindsey Jacobellis se confunde com a ascensão do snowboard cross, que entrou no programa olímpico justamente na edição de 2006.

Quando não está nas montanhas, Jacobellis gosta do outro extremo: a praia. O Instagram da atleta chega a ter até mais fotos na areia do que na neve. A atração pela Califórnia continua, assim como a paixão pelo surf. “O surf passa uma sensação parecida com o snowboard”, diz a norte-americana.

Sochi, 16 de fevereiro de 2014

28 anos de idade

Os Jogos Olímpicos de Sochi marcavam o fim de um ciclo conturbado para a atleta. Na semifinal olímpica de Vancouver 2010, Jacobellis saiu do trajeto na primeira curva — quando disputava a liderança — e acabou eliminada ali mesmo. No ano seguinte, o título mundial e do Winter X-Games foram o último respiro da atleta antes de uma lesão em 2012.

Durante os treinamentos para o Winter X-Games, em janeiro de 2012, Jacobellis sofreu uma queda — ironia do destino, na última rampa da pista em Aspen — e rompeu os ligamentos do joelho esquerdo. A princípio, apenas a temporada daquele ano estava encerrada para ela.

Entretanto, os meses passavam e as dores seguiam. Já em dezembro, a norte-americana passou por novos exames que detectaram que a cirurgia do início do ano não havia sido suficiente para corrigir a lesão. Assim, a atleta teve que passar novamente por todo o processo em 2013, em mais uma temporada perdida.

A volta ocorreu em 2014, diante de muitas dúvidas dela e da imprensa. “Terei ficado para trás?”, se perguntava Jacobellis durante as intermináveis sessões de fortalecimento muscular, longe das montanhas. A vitória no Winter X-Games mostrou que não.

Semanas depois, já nos Jogos Olímpicos, a atleta fez o segundo melhor tempo das qualificatórias. Nas quartas de finais, foi a primeira colocada da sua bateria. Na semifinal olímpica, Lindsey Jacobellis novamente apareceu em primeiro lugar com grandes chances de vencer, e novamente se viu sem equilíbrio. Não teve final para ela, nem medalha.

“Em nosso esporte não há garantias. É um rolar de dados”, diz Jacobellis. E quando você joga o dado apenas três vezes em um intervalo de 12 anos, é razoável admitir que as chances de vitória passem longe de qualquer garantia. No entanto, o que foi feito entre esses arremessos valoriza e consolida a carreira de uma das maiores snowboarders de todos os tempos.

Pyeongchang 2018 pode ser o último dado na mão de Jacobellis. A atleta aguarda ansiosamente o desfecho dessa história. Diferente de Turim, a maturidade e as conquistas tiram a responsabilidade do ouro a qualquer custo, mas ainda deixam vivo aquele fio de esperança de que o futuro possa corrigir essa injustiça histórica.

Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Os fatos que tornam Breanna Stewart a grande promessa do basquete feminino norte-americano

Basquete

Sem liga profissional, vôlei feminino lota ginásios nos torneios universitários dos EUA

Vôlei

Por que não liberam o doping no esporte? Entenda a questão

Discussão

Nadadora Ruta Meilutyte perde testes e pode ser suspensa

Rápidas

Redes Sociais