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Pensamentos sobre o peso de uma medalha olímpica no século XXI

O quanto a globalização tirou das Olimpíadas o status de conquista absoluta e nos força a enxergar a renovação dos Jogos como uma mudança necessária?

Em cada uma das inclusões recentes de esportes no Programa Olímpico, uma discussão vem á tona. “Golfe? Será que os melhores atletas vão disputar os Jogos?”. “Surfe? Mas o pessoal nem deve se importar com Olimpíada. Sem contar com a limitação de achar um bom local de competição…”

São questionamentos justos, mas também nos permitem ver o motivo pelo qual a Olimpíada não é para eles o que seria para um pentatlo moderno. Golfe e surfe são exemplos com encaixe perfeito. Os dois esportes cresceram e se solidificaram num universo próprio, paralelo ao dos Jogos Olímpicos.

É assim também com futebol, tênis, ciclismo de estrada, snowboard e skate, para citar os casos mais claros. Os esportes se desenvolveram, criaram circuitos próprios, conseguiram patrocínios milionários, angariaram um público massivo e criaram ídolos próprios por conta própria. Tudo isso fora das Olimpíadas.

A partir do momento em que entram nos Jogos Olímpicos, se deparam com o desconhecido. ‘Se eu já tenho reconhecimento, mídia, dinheiro e uma base de fãs enormes, o que a Olimpíada pode me dar de novo?’.

Antes de voltar a isso, precisamos falar sobre a simbologia da medalha olímpica no século XXI.

A cada quatro anos, nem sempre o melhor ganha

Uma questão sempre existiu nos esportes de alto rendimento: Quem ganha a Olimpíada em determinada modalidade é o melhor? Objetivamente, podemos argumentar que quem ganhou foi o melhor daquele dia e naquele momento específico.

Mas se aumentarmos o recorte e pegarmos os últimos dois anos antes dos Jogos? Certamente uma boa parte dos campeões olímpicos não foram os melhores nos mundiais e nos respectivos circuitos. Mikaella Shiffrin que diga. Atual tricampeã mundial do slalom no esqui alpino e vencedora de 5 entre as últimas 6 classificações gerais da Copa do Mundo na modalidade, ficou fora do pódio da modalidade em Pyeongchang 2018. Lindsey Jacobellis, pentacampeã mundial e decacampeã do Winter X-Games no Snowboard Cross, não tem ouro olímpico.

E aí podemos enumerar várias ‘zebras’ olímpicas recentes, mas o cerne do raciocínio é que, em tempos de televisão por assinatura, smartphone, viagens de avião e internet, os circuitos de cada esporte se expandiram e se consolidaram de uma forma em que podemos chegar na véspera dos Jogos Olímpicos e observar um vasto currículo de todos os quatro anos anteriores de cada um dos atletas. Afinal, eles já tiveram chances suficientes para mostrarem do que são capazes. De forma que, mesmo se não conquistarem uma medalha olímpica, serão lembrados dentro do esporte, seja porque ‘ganhou os últimos três campeonatos mundiais’ ou porque é ‘decacampeã do Winter X-Games’.

A vitrine dos Jogos Olímpicos continua imensa. É vital para a maioria dos esportes. Mas, esportivamente falando, já precisa dividir um espaço maior com outros eventos no quesito importância. Hoje, deixar de ganhar uma medalha olímpica é menos desolador do que era 50 anos atrás, pois atualmente existem muito mais artifícios para cravar o nome na história.

Saber que não está mais sozinho no mundo

Se o peso esportivo dos Jogos Olímpicos não é mais absoluto no meio esportivo, por que não explorar isso e chamar mais gente para a festa? Ao entender que os Jogos Olímpicos não são mais uma ‘instituição sagrada’ em que todos os esportes devem se curvar a ele, o Comitê Olímpicos Internacional (COI) abre as portas para torná-lo atrativo também para um público novo, e não estagnar até se tornar defasado como entretenimento e espetáculo.

A relação dos esportes com os Jogos Olímpicos tornou-se muito mais horizontal do que vertical. Das relações ecológicas, vem outra analogia: o panorama atual exige uma relação muito mais de mutualismo do que parasitismo.

Assim, o COI foi ousado ao incorporar skate e surfe — dois esportes com mundos particulares — no Programa Olímpico. Mas é uma tentativa com potencial de agregar público e quem sabe, no futuro, fazer da medalha olímpica objeto de desejo de surfistas e skatistas. Nome e estrutura para isso, os Jogos Olímpicos têm. Assim como teve, agora, a capacidade de reconhecer que não está — nem precisa estar — sozinho no mundo.

O movimento olímpico, historicamente, tem o dom de capturar o espírito do tempo

Os Jogos Olímpicos da Era Moderna aproveitaram um timing perfeito para nascerem. O fim do século XIX e início do século XXI marcavam um ponto determinante na história da sociedade como é hoje, com avanços globais na comunicação e transporte. Sigmund Freud começava a ficar conhecido com obras no campo do conhecimento que traziam à tona discussões sobre simbologia e mitos. A Exposição Universal de Paris de 1900 também era um grande marco mundial nas mudanças pelas quais o mundo passava.

As Olimpíadas abrigaram tudo isso e foram um símbolo do que era a sociedade do início do século XX. Tão qual foi um símbolo do bombardeio midiático e comercial global que a televisão passava a se tornar na década de 1980, fato que coincidiu com a profissionalização na gestão dos Jogos Olímpicos e a mudança de mentalidade que visava, a partir de então, explorar o evento como uma marca.

O modelo dos Jogos Olímpicos atuais é fruto de contextos e abordagens específicas explorados em épocas e contextos específicos.

Modelos se tornaram defasados e foram renovados. O que funciona em um momento pode não encaixar em outro.

Surfar a onda do momento significou, até hoje, vida nova e longa para os Jogos Olímpicos.

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