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Denúncias de sexismo e cultura do medo encabeçam crise interna no ciclismo de pista britânico

A menos de 100 dias dos Jogos Rio 2016, o esporte que era solução do Team GB vira problema

SWpix.com

Não havia passado uma semana completa desde o término do Mundial de Ciclismo de Pista de 2016, realizado em Londres, no Velódromo Olímpico. Jessica Varnish, atleta da equipe britânica, recebe um telefonema. Do outro lado da linha, um diretor da British Cycling [Federação Britânica do esporte] diz que ela, a partir daquele momento, não fazia mais parte do programa olímpico da equipe.

Varnish — de 25 anos — havia falhado na tentativa de conseguir a vaga olímpica para o Rio 2016 no sprint por equipes. No Mundial, Jessica Varnish correu ao lado de Katy Marchant e a dupla terminou na quinta posição, contra um sétimo lugar da França. Por conta do ranking olímpico, as britânicas precisavam estar pelo menos três posições abaixo das francesas para se classificarem para o Rio.

Depois da prova, em entrevista para a BBC, Varnish criticou a omissão da British Cycling no planejamento em busca pela vaga olímpica no sprint por equipes e disse que não sabia se gostaria de continuar convivendo com aquelas pessoas para o próximo ciclo. Jessica Varnish ainda seria eliminada nas oitavas de finais no sprint individual.

A notícia do rompimento do programa olímpico da British Cycling com Varnish não seria divulgada abertamente à imprensa, seguindo a política da entidade. As implicações sobre a ciclista é que ela não poderia mais treinar com a equipe nacional em Manchester nem com os técnicos e assistentes da seleção do país. Além disso, as chances dela ser chamada para uma das vagas individuais para o Rio 2016 caíam drasticamente.

Segundo Jessica Varnish, ela recorreu da decisão com ajuda da Comissão dos Atletas Britânicos, mas não teve sucesso. A ciclista ainda recebeu um e-mail de Shane Sutton [diretor técnico da British Cycling desde 2014], que dizia que as portas da British Cycling estariam sempre aberta se ela tivesse consciência dos critérios e pedia para ela provar se a entidade estivesse errada. Varnish, segundo depoimento, ainda tentou repetidas vezes ter uma reunião com Sutton e Iain Dyer [coordenador da equipe olímpica britânica], mas os pedidos foram negados.

Katy Marchant (esquerda) e Jessica Varnish em entrevista para a BBC no Mundial (Foto: Reprodução BBC)

A ciclista seguiu treinando — por conta própria — e com esperanças de ser reintegrada à equipe e convocada para os Jogos do Rio 2016.

Maré agitada

Seis semanas se passaram desde a saída de Jessica Varnish do programa olímpico da federação nacional. No dia 19 de abril a ciclista se surpreendeu ao ver o rosto estampado no jornal The Telegraph, com a notícia pública de que ela não fazia mais parte do programa e que a decisão não havia sido uma represália às críticas realizadas pela atleta no Mundial.

No artigo, Shane Sutton explicava que o desempenho de Varnish não foi satisfatório durante o ciclo e que, além de perder a maior parte dos confrontos diretos contra a França no sprint por equipes, a ciclista também vinha em uma descendente em relação aos tempos individuais, o que levava a crer que ela não teria chances de medalhas no Rio. A partir disso, nas palavras de Sutton, não havia motivos para desperdiçar fundos com Varnish.

A ciclista encarou a entrevista como um baque. “Naquele momento eu percebi que minha carreira na equipe britânica tinha acabado aos olhos de Sutton”, declarou a atleta em nota oficial. Ao mesmo tempo, ela não tinha mais motivos para esconder algumas coisas do passado.

O contra-ataque de Varnish veio na forma de revelação de um diálogo que teve com o diretor técnico britânico em Manchester, quando a atleta foi até o velódromo buscar os pertences pessoais dias após a dispensa do programa olímpico. Para a imprensa, Varnish falou que, ao pedir a Sutton e Dyer para ver os seus relatórios de desempenho, Sutton disse que não podia dar e afirmou que ela já estava velha demais, então era o momento de seguir em frente e ter um bebê.

A ciclista falou que ainda há uma cultura machista espalhada por toda a British Cycling, lembrando de um fato ocorrido após Londres 2012, quando afirmou ter ouvido de uma pessoa da entidade que “tinha uma bunda muito grande para mudar de posição na equipe de sprint”. Isso porque Varnish e Victoria Pendleton — que chegaram a deter o recorde mundial da prova — acabaram eliminadas na fase semifinal nas Olimpíadas após uma troca de posições irregular.

Shane Sutton nega que tenha feito ou falado algo que não fosse profissional para Varnish.

Victoria Pendleton também fala publicamente

Dona de dois ouros olímpicos e nove títulos mundiais, se tem uma mulher que poderia falar com propriedade dos bastidores do ciclismo britânico é Victoria Pendleton. Atualmente aposentada do esporte, Pendleton partiu em defesa da ex-companheira.

Varnish (esquerda) e Pendleton na Copa do Mundo, em 2012 (Foto: PA)

Em entrevista para o The Telegraph, Pendleton confirmou que há uma cultura baseada em assédio moral dentro da British Cycling, que parte de uma minoria que possui poderes dentro da entidade contra atletas do sexo feminino.

“Eu realmente nunca senti que tinha o mesmo respeito que os meus colegas do sexo masculino”, disse a ex-ciclista ao jornal inglês. “Minha opinião não valia tanto. Eu costumava me sentar calmamente nas reuniões e não dizer nada, uma vez que eu sabia que nada que eu falasse seria considerado, mesmo após ser campeã olímpica e ter vários títulos mundiais”.

Pendleton ainda questiona a falta de mulheres em posições de lideranças na organização, uma vez que atualmente não há nenhuma, mas admite que é uma questão para o esporte como um todo.

Perguntada sobre os comentários sobre o corpo de Jessica Varnish, Pendleton ponderou ao The Telegraph: “Sendo uma ferramenta de trabalho, você tem que estar aberto a discutir abertamente sobre isso, mas há uma maneira sensível de fazer as coisas. Eu acho que foi uma forma muito insensível de abordar isso. Há uma incapacidade de compreender que existem diferenças. Não somos robôs sem sentimentos”.

A ex-ciclista confirmou ainda que os treinamentos são realizados com foco total e absoluto no desempenho, sem empatia emocional com os atletas. Pendleton admite que os resultados de Pequim e Londres (16 ouros ao todo na pista) comprovam a eficácia, mas não acha que os fins justificam os meios. A atleta ainda contou que, por várias vezes, treinava segurando lágrimas e desistiu de encarar mais um ciclo olímpico — mesmo se sentindo bem fisicamente — devido ao desgaste emocional.

Queda de Shane Sutton

Às denúncias de Varnish e Pendleton se juntaram depoimentos de paratletas britânicos, que se disseram ridicularizados por Shane Shutton em diversas ocasiões. O haxacampeão paralímpico Darren Kenny foi um dos que confirmou o comportamento de Shutton. O jornal britânico Daily Mail apurouque havia ainda piadas internas feitas pelo diretor em relação aos paratletas.

O caso rendeu uma suspensão do diretor técnico enquanto era aberta uma investigação formal para esclarecer as situações envolvendo Shutton.

A pressão foi tanta que, na marca de 100 dias para os Jogos do Rio 2016, Shane Shutton renunciou ao cargo de diretor técnico. “Os acontecimentos aos longo dos últimos dias têm claramente se tornado uma distração. É por essa razão, depois de ter falado com amigos e familiares, que acredito ser de melhor interesse para a British Cycling que eu renuncie ao cargo”, disse Shutton em comunicado.

Shane Shutton (Foto: PA)

O técnico, reconhecido pela dureza no tratamento aos atletas, disse seguir confiando e torcendo por um bom desempenho dos ciclistas britânicos no Rio, mas a notícia da saída de Shutton ainda deixa lacunas, como, por exemplo, nas convocações dos ciclistas para os Jogos Olímpicos.

Ainda há uma dúvida sobre como reagirão os atletas “protegidos” de Shutton. O técnico foi o grande responsável, por exemplo, por trazer o respeitado sprinter Mark Cavendish para a equipe. Outros nomes diretamente envolvidos com Shutton por vários anos são os multicampeões Bradley Wiggins, Laura Trott e Becky James.

Wiggins, inclusive, chegou a declarar que se precisasse treinar na manhã do Natal, bastava ligar para o técnico que ele iria prontamente.

Mas se tem alguma coisa que Shutton não conseguia ser era político. Um relato dá conta de que, em determinado momento, a maioria das pessoas envolvidas com o ciclismo de pista no país não tinha um bom relacionamento com ele, mas o diretor técnico ainda era a primeira pessoa chamada se alguém precisasse de algo.

Outros ciclistas reagiram positivamente à renúncia de Shutton. Tre Whyte, do BMX, confirmou publicamente que a atmosfera dentro da British Cycling é — nas palavras dele — terrível, e que isso ocorre principalmente por conta da forma como a alta administração da entidade age em relação aos atletas.

O jornal The Guardian ainda publicou que outros três ciclistas disseram estar contentes com a saída do diretor técnico, mas não quiseram revelar as identidades por medo de retaliações na convocação para os Jogos Olímpicos do Rio. Publicamente, a medalhista de prata olímpica Emma Pooley, hoje aposentada, endossou o coro.

O estouro da panela de pressão

A crise que toma conta da British Cycling ocorre justamente no período de maior incerteza do ciclismo de pista britânico em uma década. Para manter uma geração dona de 16 ouros olímpicos entre 2008 e 2012, Dave Brailsford [ex-comandante da entidade] lidava com tensões diárias entre ciclistas e dirigentes, seja na disputa por hierarquia, preferência nas convocações ou mesmo no relacionamento entre as pessoas. Segundo Brailsford, a equipe prosperou justamente pelo fato de não ter zonas de conforto dentro da British Cycling.

Na época, o Dr. Steve Peters, psicólogo da British Cycling, ficou conhecido no meio esportivo britânico justamente por conseguir ajudar a administrar as tensões. Aliado a isso, os experientes Chris Hoy, Bradley Wiggins, Nicole Cooke e Victoria Pendleton ajudavam a manter a estabilidade da entidade, mesmo com a existência de tensões internas.

Dave Brailsford (em pé, à esquerda) e a equipe britânica antes dos Jogos de Londres 2012 (Foto: PA)

O período pós-Londres 2012 aliou a aposentadoria dos ciclistas britânicos mais respeitados com uma entressafra que resultou em apenas um ouro entre as provas olímpicas no Mundial de Ciclismo de Pista de 2014.

O especialista William Fotheringham compara a equipe britânica de ciclismo a uma panela de pressão, que conseguiu se manter firme durante dois ciclos olímpicos vitoriosos, mas que, agora, explodiu.

Curiosamente, nos dias seguintes ao afastamento de Shane Shutton, a expectativa da British Cycling de que a situação ficasse mais amena caiu por terra com novos questionamentos.

Um anúncio de venda de uniformes de alto rendimento da equipe britânica surgiu na internet. Os uniformes, financiados pela UK Sport, não poderiam, por contrato, ser vendidos para lucros pessoais. Alegações de fontes ouvidas pelo The Telegraph apontam novamente o nome de Shane Shutton, que, segundo o jornal, vivia sem pagar aluguel em um apartamento em cima de uma loja de bicicletas que vendia equipamentos da British Cycling.

Como se não bastasse, no dia 29 de abril foi divulgado o doping do ciclista Simon Yates, campeão mundial na prova por pontos em 2013 e cotado para integrar a equipe britânica de estrada nas Olimpíadas de 2016. O caso não parece tão grave pelo fato do atleta ter colocado o medicamento que usou no formulário médico da corrida, mas não havia obtido o pedido de isenção para uso terapêutico. De qualquer forma, serviu para agitar ainda mais a rotina da British Cycling.

Enfim…

A explosão da panela de pressão do ciclismo de pista britânico causou estragos ainda mais fortes do que o esperado. Se o objetivo de manter o padrão que os britânicos se acostumaram na pista já era algo que parecia distante, a menos de 100 dias para as Olimpíadas a rotina da British Cycling se transforma em um caos e aumenta ainda mais a expectativa para saber em qual estado o ciclismo de pista da Grã Bretanha chegará aos Jogos Olímpicos.

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