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Como um jogo de cartas deve tirar o número 2 do mundo no Badminton dos Jogos Rio 2016

e o coloca em um cassino da máfia japonesa

É janeiro de 2015, e Kento Momota está próximo a uma mesa de baccarat em uma sala no distrito de Sumida, na capital japonesa. Naquela época, Momota ocupava a 13ª colocação do ranking mundial de badminton, e o lugar em questão era um cassino clandestino.

Pouco mais de um ano depois algumas coisas mudaram. Momota teve um 2015 de ascensão no esporte. No ano em que completou 21 anos, ele escalou o ranking mundial até a segunda colocação, obtida na atualização de 4 de abril de 2016. No caminho ele tornou-se o primeiro homem japonês a conseguir uma medalha individual no Mundial do esporte, com um bronze obtido na Indonésia.

O cassino frequentado por Momota foi fechado pela polícia ainda em maio daquele ano. Além de apostas em geral serem ilegais no Japão (apenas poucas exceções possuem uma regulamentação que as libera), a polícia também identificou ligações do local com chefes da Sumiyoshi-kai, a segunda maior organização de crime organizado do país.

O cassino operou de novembro de 2014 até maio de 2015. Somente nos meses de fevereiro a abril o estabelecimento em Sumida levantou, em ienes, um valor de aproximadamente 925 mil dólares, de acordo com a mídia japonesa.

Iniciação

Quem apresentou o cassino para Momota foi o companheiro de clube dele: Kenichi Tago, que figurou entre os cinco melhores jogadores do mundo em 2014. Tago ainda havia jogado as Olimpíadas de Londres 2012, mas foi eliminado na primeira fase.

Com Tago e Momota como os melhores jogadores japoneses no esporte no início de 2015, o primeiro — cinco anos mais velho — introduziu o segundo no mundo das apostas.

Momota em ação (Foto: BadmintonNow/Twitter)

Kenichi Tago ainda mantinha a 8ª posição no ranking da Federação Mundial de Badminton (BWF) em janeiro de 2015, mas iniciaria, em seguida, uma queda livre que o levou para a 63º colocação em abril de 2016.

Um relatório do Nippon Telegraph and Telephone East (NTT East), clube dos dois jogadores, apontou que Tago ia pelo menos dez vezes por mês, entre outubro de 2014 e março de 2015, jogar baccarat (um jogo de cartas de origem italiana) no local.

As apostas variavam entre 20 e 100 mil ienes (aproximadamente 185 a 925 dólares), o suficiente para Tago somar um prejuízo de 10 milhões de ienes (U$ 92,500) no período, de acordo com uma estimativa da mídia japonesa.

Momota, segundo as informações apresentadas para a imprensa, esteve seis vezes no local, todas em janeiro. Nas visitas ele perdeu cerca de 500 mil ienes (U$ 4,600).

Mesmo após o cassino de Tóquio ser fechado, Kenichi Tago ainda continuou jogando em um estabelecimento montado em Yokohama, que seria desmontando pela polícia em março deste ano.

O anúncio

Kento Momota esteve em quadra pela última vez em uma competição oficial no dia 3 de abril, no India Superseries, vencida por ele e que deu impulso para elevá-lo à segunda posição no ranking mundial, a melhor alcançada pelo atleta na carreira. No dia 7 o escândalo envolvendo o nome do jogador estourou.

No dia 11 veio o anúncio: a Federação Japonesa de Badminton afastou Momota das competições oficiais por tempo indeterminado. A decisão deixa o atleta muito longe dos Jogos Olímpicos do Rio 2016.

Momota e Tago na televisão japonesa (Foto: Reprodução)

Bastante abalados, Kento Momota e Kenichi Tago concederam uma entrevista coletiva. Tago reconheceu as ações e disse assumir todas a culpa pelos acontecimentos. Já Momota falou que disputar uma Olimpíada era um sonho de criança.

O chefe da Federação Japonesa de Badminton, Kinji Zeniya, derramou lágrimas durante a coletiva e manteve as portas abertas para uma possível participação olímpica de Momota em Tóquio 2020, mas reconheceu que o atleta deveria sofrer uma punição pelo erro. A pena por apostas ilegais no Japão pode chegar a cinco anos de prisão.

Cassinos e máfia no Japão

Os cassinos são ilegais porque atraem a máfia ou atraem a máfia porque são ilegais? A discussão divide bancadas na política japonesa, mas o fato é que os jogos ilegais são mantidos com força pelo crime organizado do país.

Chamar de cassino os lugares em que as apostas ocorrem no Japão pode ser exagerado. Se na última década falavam em aproximadamente 1.000 desses locais operando em Tóquio, a maior parte deles não passam perto da sofisticação das grandes casas de apostas legalizadas ao redor do mundo.

O baccarat, jogado por Kento Momota, é especialmente popular na região. Tanto é que Macau — principal destino dos japoneses que buscam as apostas legais — possui cassinos com andares especialmente dedicado ao jogo e tira dele 91% dos lucros.

Mesas de baccarat em Macau (Foto: Divulgação/Gamingfloor)

Relatórios da Comissão de Controle de Jogos de Nevada, nos Estados Unidos, dão conta de que o baccarat é também o segundo jogo mais lucrativo para os cassinos entre os mais jogados nas casas de apostas, perdendo apenas para o blackjack.

Outro fator que contribui para o aumento do lucro das máfias é que, de acordo com um estudo do Ministério da Saúde japonês, 5% da população no país possui problemas com vício em jogos.

Enfim…

O badminton japonês sofre um duro golpe após ter conseguido resultados relevantes durante o ciclo olímpico. Em Londres 2012, Mizuki Fujii e Reika Kakiiwa foram responsáveis pela primeira medalha japonesa no esporte, através de uma prata nas duplas femininas.

No último Mundial, além do bronze de Kento Momota no simples masculino, o país também voltou da Indonésia com mais duas terceiras posições, obtidas nas duplas masculinas e femininas. Um ano antes foi a vez de Minatsu Mitani trazer, no individual feminino, uma medalha para os japoneses no badminton.

Ou seja, o Japão, em mundiais, subiu no pódio em quatro das cinco categorias do esporte durante o ciclo olímpico, faltando apenas as duplas mistas.

Com a saída de Momota, o jogador japonês melhor posicionado no ranking mundial do individual masculino passa a ser Sho Sasaki, 26º colocado.

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